O preenchimento com ácido hialurônico é, sem dúvidas, o mais difundido pelas clínicas estéticas do Brasil e do mundo. Ser reabsorvível, possuir antídoto, manter boa capacidade volumizadora e poucas reações adversas são alguns dos motivos que consagraram o ácido hialurônico como número 1 quando se fala de estruturação da face.
Entretanto, uma nova pergunta surge na comunidade médica nos últimos tempos: seriam essas características realmente as mais desejadas em um preenchedor ideal? Não seria mais interessante um produto que fosse mais durável, que não causasse nenhum efeito adverso de edemas/inflamações no tecido e que ainda tratasse a pele?
A resposta é: sim! E quando olhamos para trás, percebemos que esse preenchedor ideal já estava entre nós há muito tempo, dentro dos centros cirúrgicos, a gordura.
Mas se já existia, o que mudou?
A gordura voltou a ser holofotes com a decadência das grandes harmonizações faciais e a necessidade de formas de estruturações faciais que fossem mais gentis e trouxessem resultados mais naturais.
Já amplamente utilizados dentro da cirurgia plástica, os preenchimentos com gordura, conhecidos como lipoenxertias, sempre foram conhecidos pelas propriedades de, além de preencher, trazer viço e qualidade de pele, fornecendo um resultado não só de remodelação da face, mas também de firmeza e elasticidade de pele.
Hoje, o cenário evoluiu:
– a coleta de gordura é realizada em consultório, em contexto não-cirúrgico, com muita delicadeza para preservar ao máximo a integridade das células de gordura;
– a gordura coletada é filtrada no que chamamos de ‘microfat’, uma versão mais purificada da gordura para servir de preenchimento, ou seja, não é a gordura “crua” que vira o preenchedor, e sim, a gordura depois de purificada;
– a forma de aplicação respeita os terços da face, a linha dos ligamentos e a idade da paciente, utilizando dispositivo calibroso para segurança vascular;
– uma parte da ‘microfat’ é processada novamente para ‘nanofat’, uma fração riquíssima em células tronco e fatores de crescimento e aplicada como bioestimulador e biorregenerador tecidual (vou abordar sobre o ‘nanofat’ mais adiante);
Um dos únicos pontos negativos refere-se à “pega” da gordura, ou seja, há muitos relatos sobre a gordura ser “reabsorvida”, não preservando o resultado volumizado desejado. Vamos entender melhor?
A "pega" do enxerto de gordura
Existem vários motivos para a pega da gordura ser um sucesso ou não. Mas para entendermos o desfecho, precisamos entender qual o mecanismo por trás da “pega” da gordura.
A gordura, quando injetada em uma nova região, precisa ser mantida por vasos sanguíneos. Ou seja, o novo tecido precisa desenvolver uma circulação nova para suprir os nutrientes para essas novas células.
No período logo após o preenchimento com a gordura, ela sobrevive apenas gastando os nutrientes que ainda existem no próprio tecido, porém, com o passar dos dias, o consumo desses nutrientes determina a necessidade da criação de vasos sanguíneos específicos para o novo tecido. Como essa produção de vasos demanda tempo, as primeiras semanas após o procedimento são cruciais para a “pega” da gordura.
Caso a paciente acelere o metabolismo dos tecidos da face, o suprimento sanguíneo não dará conta e a gordura invariavelmente irá ser reabsorvida. Por isso, repouso é necessário, sem grandes atividades físicas, sem realização de massagens ou outros procedimentos estéticos, sem grandes manipulações da face (isso inclui cuidado ao dormir, ao ir no salão de beleza, ao fazer skin care, dentre outros).
Além disso, outro fator que aumenta o sucesso da “pega” é a quantidade de células viáveis coletadas. Por isso, a delicadeza na hora de coletar e os filtros para processamento da gordura também são igualmente responsáveis para a viabilidade do enxerto.
Tem mais um ponto importante: a técnica de injeção. Quanto mais gentil for a alocação da gordura, menos trauma será causado e o tecido necessitará de menos demanda energética para se recuperar, aumentando consideravelmente a chance de sucesso do enxerto.
Ainda assim, existe um comportamento da gordura que é importante de se entender. Mas antes, vamos entender o que é o ‘nanofat’?
'Nanofat' como bioestimulador e biorregenerador
Todo mundo usa essas palavras, mas o que de fato elas significam?
Vamos começar do começo: a composição do ‘nanofat’. Após filtrar a gordura algumas vezes, extrai-se apenas a parte mais nutritiva desse tecido. Citarei aqui alguns compostos que fazem do ‘nanofat‘ um dos produtos mais ricos que o nosso corpo produz:
- Células-tronco que podem se tornar células de tecido adiposo para densificar o tecido subcutâneo, células de vasos sanguíneos para aumentar nutrição da pele e que, ainda, são capazes de secretar fatores anti-inflamatórios para a pele e também tróficos, ou seja, que estimulam a pele a se regenerar e se desenvolver;
- Fator de crescimento de vasos sanguíneos que auxiliam ainda mais o surgimento de uma nova vascularização que trará nutrição para a pele;
- Fator de crescimento derivado de plaquetas, que auxiliam na replicação celular;
- Fator de crescimento transformador Beta, um potente estimulador de colágeno;
- Dentre outros fatores de crescimento e células de suporte tecidual como fibroblastos que também vão favorecer a regeneração da pele.
Entendendo a composição desse, como gosto de chamar, “suquinho nutritivo da gordura”, consegue-se entender o que significa esse bioestímulo com biorregeneração: não se trata apenas de aumentar o colágeno na pele, mas também de melhorar a qualidade do tecido que vai receber esse novo colágeno. Um tecido mais nutrido, mais celularizado, mais jovem.
E a melhor parte, esse estímulo vem das suas próprias células. Não há risco de rejeição, nódulos ou outras complicações que podem estar presentes no uso de bioestimuladores sintéticos.
não se trata apenas de aumentar o colágeno na pele, mas também de melhorar a qualidade do tecido que vai receber esse novo colágeno. Um tecido mais nutrido, mais celularizado, mais jovem.
Por fim, a gordura trabalha em prol dela mesma
Mesmo que parte da gordura seja reabsorvida, o comportamento de toda essa ‘micro’ e ‘nanofat‘ ao longo dos meses e anos é de produzir novo tecido, seja da própria gordura (um subcutâneo rico e saudável), como também da pele, deixando a derme mais densa, túrgida e espessa.
Dessa forma, o resultado final de uma lipoenxertia regeneradora não é após o tempo de acomodação da gordura (de 1 a 3 meses) e sim, após anos e anos desse novo tecido trabalhando e retroalimentando a si mesmo.
Por isso, arrisco dizer sem medo: a gordura é o preenchedor mais rico que existe!
REFERÊNCIAS:
• Shauly O, et al. Fat Grafting: Basic Science, Techniques, and Patient Management. Plastic and Reconstructive Surgery Global Open, 2022.
• Bellini E, et al. The science behind autologous fat grafting. Annals of Medicine and Surgery, 2017.
• Egro FM, et al. Facial Fat Grafting: The Past, Present, and Future. Clinics in Plastic Surgery, 2020.
• Gir P, et al. Fat Grafting: Evidence-Based Review on Autologous Fat Harvesting, Processing, Reinjection, and Storage. Plastic and Reconstructive Surgery, 2012.
• Kato H, et al. Degeneration, regeneration, and cicatrization after fat grafting: dynamic total tissue remodeling during the first 3 months. Plastic & Reconstructive Surgery, 2014.
• Uysal ÇA, Borman H. Megavolume autologous fat transfer: part I. Theory and principles. Plastic and Reconstructive Surgery, 2014.
• Schiraldi L, et al. Facial Fat Grafting (FFG): Worth the Risk? A Systematic Review of Complications and Critical Appraisal. Journal of Clinical Medicine, 2022.
• Wederfoort JLM, et al. Donor Site Satisfaction Following Autologous Fat Transfer for Total Breast Reconstruction. Aesthetic Surgery Journal, 2022.
• Tonnard P, et al. Nanofat Grafting: Basic Research and Clinical Applications. Plastic and Reconstructive Surgery, 2013.
• La Padula S, et al. Nanofat in Plastic Reconstructive, Regenerative, and Aesthetic Surgery: A Review of Advancements in Face-Focused Applications. Journal of Clinical Medicine, 2023.
• Kaur S, et al. The General Registry of Autologous Fat Transfer (GRAFT): Concept, Design and Analysis of Fat Grafting Complications. Plastic and Reconstructive Surgery, 2022.
• Informações técnicas sobre o sistema de processamento LipoCube™ — lipocube.com e Eurosurgical.
Escrito por Dra. Ivana Ponce – Médica
CRM 46488PR
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